Conheça o ratinho ligado ao hantavírus no Brasil e entenda os reais riscos

  • 20/05/2026
(Foto: Reprodução)
Conheça o rato-do-arroz ligado ao hantavírus e entenda os riscos no Brasil No silêncio da noite, entre as bordas da Mata Atlântica e os galpões das fazendas, um pequeno roedor de patas finas e cauda longa movimenta-se com agilidade em busca de sementes. O Oligoryzomys nigripes, popularmente conhecido como ratinho-do-arroz, é uma peça importante da nossa fauna, mas carrega consigo um alerta à saúde pública: ele é o principal hospedeiro do hantavírus neste bioma. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Recentemente, a doença voltou às manchetes internacionais após a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmar um surto da variante Andes — a única com capacidade comprovada de transmissão de pessoa para pessoa — em um navio de cruzeiro na costa europeia, com passageiros que passaram pela Argentina. Para desmistificar a doença, entender a biologia desse fascinante mamífero e reforçar as práticas de convivência ambiental, conversamos com Bernardo Rodrigues Teixeira, pesquisador do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Conheça o ratinho ligado ao hantavírus no Brasil e entenda os reais riscos rafaelallegretti / iNaturalist Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: Dos sons da mata para o bastidor: pesquisadora transforma aves brasileiras em bordados científicos Maior área protegida de Caatinga do RN é criada para salvar aves ameaçadas de extinção Terra da Gente percorre antigas formações geológicas em busca de espécie rara O pequeno morador das matas (e dos paióis) O Oligoryzomys nigripes é um roedor silvestre com ampla distribuição geográfica no país. Ele habita principalmente áreas florestais de Mata Atlântica e suas zonas de transição com outros biomas. Visualmente, é um animal de porte pequeno e características bem singulares: possui uma cauda maior que o próprio corpo, patas traseiras longas e finas cobertas por pelos claros, além de um limite visual bem definido entre as costas, de cor acastanhada, e a barriga esbranquiçada. De hábitos predominantemente noturnos, o ratinho-do-arroz é onívoro. Seu cardápio na natureza inclui frutos, sementes, vegetais e até pequenos artrópodes. Foto de Rato-Do-Arroz (Oligoryzomys nigripes) feita no estado de SP alanrbatistao / iNaturalist “Embora esteja associado às áreas florestais, ele consegue se adaptar muito bem a ambientes modificados pela presença humana”, explica Bernardo Rodrigues Teixeira. “Por isso, acaba sendo encontrado também em bordas de mata, plantações e locais de armazenamento de grãos e alimentos.” No entanto, o avanço do desmatamento e as alterações ambientais modificaram a dinâmica da espécie. Por ter um comportamento generalista, o ratinho consegue se adaptar com facilidade a ambientes modificados pela presença humana. É por isso que ele deixou de ser um habitante exclusivo do interior das matas e passou a ser frequentemente encontrado em áreas de borda, plantações e locais de armazenamento de alimentos, como silos e paióis. As alterações do meio ambiente e a expansão agrícola acabam favorecendo a presença desse animal perto das residências. Relação com o hantavírus O ratinho-do-arroz já foi encontrado infectado pelo hantavírus nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Mas, curiosamente, o animal em si não adoece. Apesar de carregar o vírus, o roedor aparentemente não desenvolve sinais clínicos evidentes da doença. “Há um consenso científico de coevolução entre os roedores hospedeiros e os hantavírus”, explica Bernardo. “Acredita-se que esses animais tenham se adaptado ao vírus ao longo do tempo.” Falgrante de um rato-do-arroz em Miracatu, SP thathaluz / iNaturalist Para os humanos, o perigo não está no contato direto frequente, mas no ambiente. A transmissão ocorre majoritariamente na zona rural, em locais fechados usados para estocar grãos, que atraem os roedores pela fartura de alimento. Ao urinarem e defecarem nesses locais, os ratos deixam partículas virais. O momento crítico ocorre quando essas excretas secam: o vírus se mistura à poeira e se dispersa no ar. "A forma mais clássica de infecção é a partir da limpeza desses locais, quando a pessoa vai varrer esse ambiente e o aerosol contaminado é levantado com a poeira e infecta humanos", detalha Bernardo. O contágio também pode acontecer, embora em menor escala, por mordeduras ou pelo simples contato direto com as excretas. Estudos internacionais com outros roedores hospedeiros indicam ainda uma possível redução no tempo de vida dos animais infectados, embora não existam pesquisas específicas sobre isso com o Oligoryzomys nigripes. É importante ressaltar que "outras espécies de roedores silvestres também podem atuar como hospedeiras de variantes do hantavirus na própria Mata Atlântica e em outros biomas e regiões do Brasil", acrescenta o especialista. Variante Andes e o cenário brasileiro Diante do recente surto no cruzeiro MV Hondius, que registrou mortes causadas pela variante Andes do hantavírus, o temor de uma disseminação global cresceu. Essa variante, encontrada na Patagônia (Argentina e Chile), é uma exceção na família dos hantavírus por permitir o contágio entre humanos, ainda que exija contato muito próximo e prolongado. Rato-Do-Arroz (Oligoryzomys nigripes) fotografado em Paranabiacaba, SP oliprioli / iNaturalist Apesar do susto internacional, especialistas e autoridades de saúde são categóricos: o risco de uma pandemia nos moldes da Covid-19 é muito baixo, e o risco dessa cepa se espalhar no Brasil é praticamente nulo. O pesquisador da Fiocruz esclarece o motivo com precisão: a transmissão de pessoa para pessoa nunca foi registrada para as variantes que ocorrem no Brasil. Além disso, os roedores que são hospedeiros da variante Andes na Argentina não existem no território brasileiro. “A transmissão entre pessoas nunca foi registrada para as variantes brasileiras”, reforça Bernardo. “Isso faz com que o cenário epidemiológico no Brasil seja bastante diferente do observado na região da Patagônia.” Convivendo com segurança Para quem gosta de observar aves, fazer trilhas ou praticar ecoturismo, a notícia é tranquilizadora. Atividades realizadas ao ar livre apresentam baixo risco de exposição ao vírus. “O maior problema costuma estar relacionado aos ambientes fechados e mal ventilados com presença de excretas de roedores”, explica o pesquisador. O cuidado deve ser redobrado apenas em acampamentos, onde o armazenamento inadequado de comida pode atrair os roedores para as barracas, aumentando a chance de contato com excretas. Já para moradores e trabalhadores rurais, a chave é o manejo do ambiente. O objetivo não é exterminar a fauna, mas construir barreiras físicas e sanitárias. Espécie fotografada no Alagoas deboas / iNatualist Confira as orientações de segurança: Proteção respiratória: Ao entrar em paióis ou locais fechados de estocagem, utilize sempre máscaras com filtro P3 ou, no mínimo, PFF2. Ventilação: Antes de começar qualquer limpeza, abra portas e janelas. O ideal é aguardar pelo menos uma hora para que o ar circule antes de permanecer no ambiente. Limpeza úmida: Nunca varra o chão seco para não levantar poeira. Umedeça o local previamente com água, sabão e água sanitária, utilizando um pano úmido. Construções inteligentes: Os paióis devem ser suspensos com madeira e ter "rateiras" (barreiras físicas) instaladas nos pilares, bloqueando a subida dos animais. Além disso, evite construir esses depósitos muito próximos às residências. Armazenamento alto: Sacos de grãos e rações devem ficar no alto, em estrados que também contenham rateiras nos pés. Afastamento das lavouras: As plantações devem ficar a uma distância superior a 50 metros das casas. Bloqueios: Feche qualquer fresta ou buraco em paredes, telhados e rodapés que possam servir de porta de entrada. Limpeza do terreno: O entorno da casa deve estar sempre limpo, sem lixo ou entulho que sirvam de abrigo. O lixo doméstico deve ser mantido no alto e em recipientes bem fechados. Atenção extra: Em hipótese alguma durma ou descanse dentro de locais usados para estocagem de grãos. O especialista reforça que a informação correta é a melhor ferramenta de prevenção e recomenda a consulta frequente aos materiais informativos oficiais sobre a hantavirose disponíveis nos portais do Ministério da Saúde e secretarias estaduais. “O objetivo não é eliminar a fauna silvestre, mas reduzir o contato de risco entre humanos e roedores”, afirma Bernardo. “Conservar a natureza e manter esses animais em seus ambientes naturais também é uma forma de proteger a saúde humana.” VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/05/20/conheca-o-ratinho-ligado-ao-hantavirus-no-brasil-e-entenda-os-reais-riscos.ghtml


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